segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Esporotricose: como tudo começou


A seguir, gostaria de discorrer sobre uma doença a que muito me afeiçôo. (Sim, o fato de gostar de diagnosticar e tratar alguém com alguma moléstia não deve ser encarado, a meu ver, como algo insano ou psicologicamente patológico. Nós, médicos, nos permitimos tais idiossincrasias...).


Vamos aos fatos:


Cena 1: eu estou sentado em mais uma das fascinantes aulas práticas do departamento de Doenças Infecto-parasitárias (DIP) da Faculdade de Medicina de Petrópolis, quando chega até mim um garoto com cerca de 13 anos de idade, referindo quadro de nódulos eritematosos e dolorosos no dorso das mão e antebraço correspondentes. Tais nódulos pareciam claramente formar um arranjo linear e. distalmente, apresentava-se uma lesão ulcerada. A professora, após exame cuidadoso do paciente, lhe indaga, entre outras informações, acerca da convivência com animais domésticos. O rapazola - ainda se usa isso? - não só confirma a informação como acrescenta que o bichano arranhou-lhe, mas levemente, próximo à úlcera distal.


A professora, ainda que preliminarmente, comunicou-nos, então suas hipóteses diagnósticas, entre as quais, aquela que seria o diagnóstico definitivo, a ESPOROTRICOSE.


Cena 2: semana seguinte, mesmo ambulatório, mesma professora. Adentra o recinto senhor lavrador de profissão, com mesmas lesões nodulares, mesma úlcera distal. Você já viu este filme, eu também, mas aquela mesma professora, que semana antes brilhantementemente ensinara-nos sobre aquela doença, resolver cometer, para minha sorte, um lapso - que ainda espero abordar mais amiúde em outro post -não tão incomum em nós médicos: a doença está ali, claramente assinalada, conhecimento não lhe falta, domina todas as técnicas diagnósticas e modalidades terapêuticas principais e secundárias, mas, por um capricho de Esculápio, ou Hipócrates, ou seilá quem possa perder seu tempo a guardar o pobre-diabo que se dispõe a tratar individual e prestimosamente cada bendito ser que ajuda a formar aquela interminável fila do SUS. Pois bem, mesmo com todo este cabedal, a mestra não consegue juntar alhos e bugalhos, úlceras e nódulos e corre a pedir exames de uma doença que claramente se revela a um quase-leigo como eu, à epoca. Eis que, ainda com dúvidas, me manifesto, lembrando-a do paciente da semana passada e uma primeira centelha de uma nova profissão irrompe - minha indecisão quanto à minha futura especialidade (Dermatologia) começa a acabar.

Um comentário:

  1. Comparsa, tb compartilho desse prazer em fazer o diagnóstico dessa doença tão comum hj para nós!!
    Um grande abraço do seu amigo de sempre!! Léo.

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